Arsenal de Arteta troca o espetáculo pelo controle e vence o Everton
O Arsenal venceu o Everton por 2 a 0 e a análise aponta uma mudança de perfil sob Arteta: menos volume ofensivo e mais controle, receita que já custou títulos em 2022/23 e 2023/24. O time balançou a rede pelo menos duas vezes em cinco dos últimos sete jogos.

Uma palavra explica o Arsenal de Mikel Arteta na vitória por 2 a 0 sobre o Everton, neste sábado (24): controle. A equipe que tentava transformar cada jogo numa avalanche ofensiva ficou para trás.
A nova identidade rendeu uma acusação impensável em outros tempos da carreira do espanhol: passaram a chamar o atual campeão inglês de "chato". Futebol mais paciente, menos acelerado e, por vezes, previsível. Há lógica na escolha.
O treinador já armou versões do Arsenal que marcavam muito, atacavam com agressividade e empilhavam números ofensivos. Nenhuma delas levantou a Premier League. Após duas decepções seguidas, ele parece ter entendido que dominar uma temporada pede mais do que dominar o placar.
Em 2022/23 e em 2023/24 o time sufocava rivais e produzia gols em série, chegando a bater recordes ofensivos do clube na liga. Nas duas, ficou sem o troféu.
De acordo com a análise da "Sports Mole", as experiências deixaram marcas no projeto. A zaga já tinha Gabriel Magalhães, William Saliba e Ben White, mas o time ainda aceitava jogos abertos e desorganização: bastava perder a posse para o rival encontrar espaço.
A guinada ficou clara em 2024/25. Produzir volume deixou de ser prioridade isolada e passou a dividir espaço com uma pergunta constante: e se a jogada der errado? Era a passagem do caos ao controle.
Na primeira temporada da mudança, o resultado coletivo não veio como ele queria: na briga pelo título, quem ganhou terreno foi o Liverpool de Arne Slot. A base, porém, amadureceu. Atletas que estavam no começo ou no meio dos 20 anos ganharam rodagem, e a intimidade com o sistema permitiu controlar jogos que antes escapavam.
O símbolo está na bola. Em certos momentos o Arsenal desenha uma ferradura em volta do bloco rival, trocando passes sem partir de imediato para a vertical. Não é o futebol mais empolgante de ver. A ideia é cansar, fazer o adversário correr sem a bola e aguardar a fresta. Ela pode vir de uma jogada individual, de um desvio, de uma bola parada ou, simplesmente, de tanto sufoco territorial que o rival perde a concentração.
O time mostrou isso em várias partidas recentes. Sem goleadas frequentes, balançou a rede pelo menos duas vezes em cinco dos últimos sete compromissos, contando todas as competições.
Há um benefício extra. Quanto mais tempo com a posse, menos tempo defendendo. E, ao perdê-la, o rival ainda precisa superar um bloco sólido, com defesa entrosada e David Raya no gol.
Entende-se por que Arteta aceita o rótulo sem drama. Diante da escolha entre um jogo caótico, com chances para os dois lados, e outro em que quase não cede, ele fica com o segundo.
O modelo tem problemas, claro. O meio-campo levanta o mais evidente: Declan Rice e Bruno Guimarães são ótimos com a bola, mas os dois gostam de avançar e aparecer no campo ofensivo. Diante do Bayern de Munique, Rice fez grande partida, mas o brasileiro ficou exposto quando o rival superou a primeira pressão e acelerou.
Não é questão de qualidade individual — os dois já deram assistência um para o gol do outro nesta temporada. É achar um desenho que preserve a obsessão do treinador.
Myles Lewis-Skelly surge como alternativa por ter perfil diferente: avança, mas prefere ficar atrás da jogada, disputar, sofrer faltas e cobrir o espaço que os companheiros deixam. Usá-lo como peça de equilíbrio, dosando os minutos de Rice ou de Bruno conforme o adversário, reduziria o risco de os dois atacarem juntos e abrirem espaço para transições.
O ponto central, porém, não está na escalação. O Arsenal já mostrou que sabe jogar de forma agressiva e marcar muito. O aprendizado de Arteta é que uma campanha de título também depende de reduzir quantas vezes o jogo foge do controle.
O saldo é um time que erra menos e, às vezes, diverte menos. Para um Arsenal que já entregou espetáculo sem levantar a taça, segurar o jogo pode valer mais do que encantar.
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